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Conservação do solo é decisiva no balanço de carbono da pecuária, aponta pesquisa

Conservação do solo é decisiva no balanço de carbono da pecuária, aponta pesquisa

09/01/2023

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Estudo de caso realizado com 23 fazendas em cinco Estados brasileiros avaliou peso das diferentes práticas de manejo no sequestro de carbono

Estudo de caso realizado com 23 fazendas em cinco Estados brasileiros avaliou peso das diferentes práticas de manejo no sequestro de carbono
Recuperar e manter a boa qualidade das pastagens preservando o solo mostrou-se um fator decisivo para balanço negativo de carbono (sequestro maior que emissões) em fazendas de criação de gado com adoção de boas práticas de manejo visando maior produtividade e sustentabilidade. Essa foi conclusão um estudo de caso feito com 23 propriedades de cinco Estados brasileiros, das quais 11 já possuíam balanço negativo.

“Esse carbono que estamos falando vem basicamente da matéria orgânica que fica fixada no solo, do pasto e das plantas que vão sendo incorporadas ao sistema. É por isso que a gente diz que temos que revolver o mínimo possível o solo, porque, se você revolve essa terra, todo esse carbono que está ali vai embora e você perde carbono”, explica o pesquisador do Centro de Agronegócios da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e supervisor do estudo, Eduardo Assad.

Com a melhor classificação entre todas as fazendas avaliadas, a Expresso Barretos, de Mato Grosso, apresentou um sequestro de 14,2 mil toneladas de carbono equivalente em 2020/2021 ante uma emissão de 62 mil toneladas observada na pior colocada. O resultado, explica o gerente da fazenda, reflete um trabalho de mais de dez anos na recuperação de pastagens degradadas a partir da integração lavoura-pecuária como estratégia para reduzir custos com a reforma do pasto.

“A agricultura entrou exatamente para diminuir o custo de renovação e reforma de pastagem que, se feito de forma convencional, não tem um retorno muito rápido. Com a integração lavoura pecuária você tem uso do solo 100% do ano com retorno não só na parte financeira, mas de toda a propriedade em si”, conta Fábio Souza, ao revelar os planos do grupo de expandir o sistema para toda a área mantida atualmente em fazendas de Mato Grosso, Goiás e Rondônia.

“Foi uma série de práticas que adotamos e que trouxe como consequência o aumento de produtividade, maior conservação do solo, um sistema mais lucrativo em que se produz mais em menos área e que gira mais o seu rebanho, não temos que ficar com ele dois a três anos na propriedade”, explica o engenheiro agrônomo ao destacar que tais resultados são fruto de um trabalho de longo prazo.

“A resposta do solo a esse aumento de carbono não é tão rápido quanto se imagina, não é como a soja que você colhe em três meses, são três anos a quatro anos para começar a ter resultados”, complementa Eduardo Assad.

Segundo o pesquisador, a principal diferença entre as fazendas com balanço negativo e positivo de carbono está no tempo de adoção das boas práticas e na forma como esse manejo tem sido empregado. Nesse sentido, Assad destaca que a integração lavoura-pecuária tem papel estratégico nesse processo.

“O primeiro passo seria a recuperação de pastagem. Com ela você sai de uma emissão e 0,7 a 0,8 toneladas de carbono por hectare para um sequestro de cerca de 0,5 toneladas de carbono por hectare. O segundo ponto seria transformar isso em Integração Lavoura-Pecuária, onde esse sequestro vai para 1 a 1,3 toneladas por hectare, e o terceiro passo chegar à ILPF com 1,7 toneladas de carbono sequestrado por hectare podendo chegar a 7 toneladas quando considerada a floresta”, explica o pesquisador.

Diferentes práticas de manejo

Encomendado pela Minerva Foods, maior exportador de carne bovina da América do Sul, o levantamento avaliou o impacto de diferentes práticas de manejo adotadas pelos pecuaristas que integram o programa Renove, criado em 2021 pela companhia para ajudar na redução de emissões de seus fornecedores. O objetivo inicial, segundo a gerente executiva do programa, Gracie Verde Selva, era criar uma linha de base para entender quais medidas têm maior ou menor impacto no balanço de emissões da cadeia de carne bovina, mas os resultados surpreenderam os executivos.

“Nós estamos fazendo esse mapeamento no programa Renove justamente para entender o que é que nós temos na cadeia e recebemos com uma surpresa muito positiva os resultados porque eles mostram o potencial que nós temos. Se a gente já tem isso em campo e não estamos comunicando sobre isso, elevando as boas práticas para outros fornecedores, isso revela o potencial que há para engajar e aumentar o uso desse tipo de prática”, comenta Gracie.

Apesar dos 23 pecuaristas avaliados representarem cerca de 10% dos produtores inseridos no Programa e um percentual infinitamente menor em relação aos mais de 17 mil fornecedores que a empresa monitora no Brasil, Gracie assegura que eles respondem por uma fatia importante das compras realizadas pela Minerva atualmente. A empresa não revela qual esse volume, mas ressalta que tem como objetivo alcançar 50% de suas compras de produtores inseridos no Renove até 2030.

“A gente escolheu essas fazendas porque são fazendas muito parceiras, que já têm uma parceria comercial muito forte e frequente com o Minerva e de quem a gente compra bastante gado”, explica Gracie ao destacar a importância de tal proximidade para a realização da pesquisa. “Essa proximidade facilita o nosso trabalho de chegar na fazenda e pedir dados porque eles têm que abrir a fazenda para nossa visita, preencher planilha, divulgar resultados, então tem que ter um alto nível de parceria e compromisso para permitir que tudo isso aconteça”, justifica a gerente executiva do Renove.

Fonte: Globo Rural