O que o futuro reserva para a pecuária?
MMDA
06.06.2018

Os primeiros meses de 2018 registraram para a carne de boi uma alta perda de competitividade frentes às principais proteínas do mercado. Um resultado advindo, principalmente, da firmeza nos valores da carcaça casada do boi e às fortes quedas nas cotações das carnes de frango e suína. A média da carcaça casada de março, de R$ 9,55/kg, foi 2,75% abaixo da de fevereiro. Os preços médios do traseiro e da ponta de agulha foram 5,04% e 0,38% inferiores aos do mês anterior, a R$ 11,48/kg e a R$ 7,78/kg, respectivamente, conforme dados do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea) Esalq/USP. Já o dianteiro avançou 1,17% no mesmo comparativo, com média de R$ 7,77/kg em março. A carcaça casada da vaca registrou queda de 2,12% na média, a R$ 8,78/kg.

O cenário não foi diferente para o consumo interno que permaneceu enfraquecido durante todo o trimestre. Já as exportações vislumbraram um cenário mais favorável, de acordo com dados da Secex, foram exportadas 319,05 mil toneladas de carne bovina in natura de janeiro a março deste ano, 20,55% acima do volume verifcado no mesmo período do ano passado. Chegamos agora ao fim do período das águas a perspectiva atual é de boa oferta de gado disponível para abate e projeção de aumento dessa oferta.

“O cenário com inúmeras incertezas prejudica a decisão de confinar, sobretudo para quem não faz ciclo completo e terá de comprar gado magro. A recente alta dos grãos, reflexo dos problemas climáticos na Argentina e possibilidade de exportar volumes maiores para a China, também dificulta a decisão e espreme as margens da engorda. Por outro lado, a terminação intensiva faz parte da estratégia de engorda de um número cada vez maior de pecuaristas”, explica Leonardo Alencar, gerente de Inteligência de Mercado do Minerva, e neste contexto explora, em entrevista para a revista BEEF, o atual panorama do setor, e os desafios que o pecuarista enfrentará neste fechamento de 1º giro no confinamento. Acompanhe.

REVISTA BEEF: Hoje, como está o panorama do setor no ponto de vista do mercado bovino?

LEONARDO ALENCAR: Estamos em plena safra, caminhando para o fim do período das águas. Com isso, o cenário atual é de boa oferta de gado disponível para abate e perspectiva de aumento dessa oferta. O ponto de atenção, entretanto, é o volume atual de abate, grande o suficiente para absorver essa oferta. Desde o começo do ano, os preços do boi gordo recuaram em São Paulo, referência para o mercado nacional, e o mesmo pode ser observado para a maioria dos Estados, porém, a queda seria mais acentuada caso o volume de abate estivesse mais ajustado à demanda atual. O consumo de carne bovina segue deprimido, nada anormal para este período do ano quando a população está descapitalizada pelos inúmeros tributos (IPVA, IPTU etc.), além de gastos extras (matrículas escolares), entre outros. Porém, um fator agravante é a ampla disponibilidade de carne de frango e suína a baixo custo, fato que gera deslocamento de consumo da carne bovina. Outro fator negativo, e que persiste desde o começo de dezembro do ano passado, é o embargo da Rússia às exportações de carne bovina do Brasil. O volume que seria embarcado foi destinado a outros países, mas o reflexo nos preços é significativo. Vale destacar, entretanto, que a pecuária é uma atividade sazonal e, historicamente, o primeiro trimestre sempre é mais pessimista, sobretudo quando no calendário do ano ainda teremos Copa do Mundo, eleições e cenário positivo para a economia, fato que terá maior impacto no segundo semestre.

Em quais regiões o Minerva atua? É possível identificar o ânimo do pecuarista nestas diferentes regiões. O cenário é igual para todos, ou algumas regiões apresentam características ou dificuldades específicas?

O Minerva sempre focou na diversificação geográfica, uma vez que a concorrência por matéria-prima tende a afetar o custo da indústria de maneira relevante, e sempre buscou se posicionar perto da oferta dessa matéria-prima. Com isso, nossas plantas estão localizadas no Sudeste, Centro-Oeste e Norte do País, regiões de maior presença da pecuária. Essa diversificação permite a arbitragem regional e temporal, possibilitando a redução do abate em uma unidade com aumento em outra, assim como a redistribuição das carteiras de mercado interno e externo ao longo do ano, se adaptando às condições de mercado e à oferta de gado. Essa sazonalidade transparece nas negociações diárias de cada unidade, fato inerente ao negócio, mas pode ser amplificado por conta de clima e outras variáveis. Conforme nos aproximamos do fim da safra, por exemplo, o regime de chuvas mudará, com menor precipitação no Centro-Sul e começo das frentes frias. Historicamente, o primeiro Estado a ser impactado é o Mato Grosso do Sul.

Como você visualiza a perspectiva de confinamento para esse ano? Principalmente agora na entrada do 1º giro do confinamento. Esse panorama deve ser mantido para o 2º giro?

O cenário com inúmeras incertezas prejudica a decisão de confinar, sobretudo para quem não faz ciclo completo e terá de comprar gado magro. A recente alta dos grãos, reflexo dos problemas climáticos na Argentina e possibilidade de exportar volumes maiores para a China, também dificulta a decisão e espreme as margens da engorda. Por outro lado, a terminação intensiva faz parte da estratégia de engorda de um número cada vez maior de pecuaristas. Ao invés de projetos com capacidade para 5, 20 ou 50 mil cabeças, o que observamos são projetos de 200, 500 ou 1000 cabeças, fato que dificulta o levantamento real da quantidade de animais em confinamento. Dessa forma, a expectativa é de incremento no volume de gado confinado no primeiro giro e possível novo incremento para o segundo giro, sobretudo para os pecuaristas que utilizaram ferramentas de gestão de risco e travaram os valores mais altos na B3.

Devido ao lento escoamento da carne bovina, que se intensificou ainda mais no fim de março, as indústrias testam preços abaixo da referência no mercado do boi gordo. E os pecuaristas relutam em entregar as boiadas nestes patamares de preços menores. É possível vislumbrar um cenário futuro melhor para o mercado do boi gordo?

Cenário atual é de safra. Com isso, a tendência de baixa no mercado do boi gordo permanece, em parte, pela pressão do mercado consumidor fraco, mas, principalmente, pela maior disponibilidade de animais nessa época do ano. Com exceção de dias festivos, como o Dia das Mães em maio, por exemplo, a tendência é de consumo deprimido até junho, quando o evento da Copa do Mundo pode ajudar a aquecer o mercado. A possibilidade de reabertura da Rússia também seria favorável. Pela sazonalidade, portanto, a expectativa é de um cenário de alta a partir de junho/julho.

Com relação a cadeia produtiva da carne. Como você definiria o atual mercado interno em função do momento em que o país vive?

No curto prazo, pelas razões já expostas, o cenário não é favorável, mas quando olhamos o cenário de 2018 a história é diferente. A retomada econômica é positiva para o mercado interno, sem dúvida, mas vale destacar o efeito no nosso setor. Historicamente, em momentos de retomada econômica, o primeiro setor a sentir a recuperação da demanda é o de alimentos. Com isso, a expectativa é de aumento no consumo per capita de todas as proteínas.

No mercado internacional (juntamente com altas do dólar, escândalos do setor) qual a expectativa para aberturas de novos mercados e manutenção dos existentes?

O Brasil é um dos exportadores mais diversificado e pulverizado do mundo, se não o maior, o que significa que as indústrias estão acostumadas a trabalhar com diferentes habilitações e certificações e a se adequar a diferentes realidades. Problemas pontuais podem existir, sobretudo quando são de ordem política ou com viés protecionista e chegam disfarçados de problemas técnicos. Entretanto, o cenário é favorável e, com isso, a expectativa é de que o Brasil consiga acessar novos mercados, além de retomar os Estados Unidos, uma vez que os critérios técnicos já tenham sido resolvidos. No curto prazo, espera-se a visita da Indonésia e a habilitação de mais plantas para a China. Porém, vale refletir se o caminho para o Brasil, de modo geral, é a abertura de novos mercados ou o melhor posicionamento nos mercados em que já atua.

Quanto da produção do Minerva é destinada aos mercados externos? E quais mercados o frigorifico atende?

O Minerva sempre focou na exportação, uma vez que enxerga o potencial de aumento no consumo de países emergentes em ritmo mais acelerado do que o observado no mercado interno, além de que o melhor desmonte do animal só é possível quando se tem maior opcionalidade para todos os cortes. No quarto trimestre de 2017, o mercado externo foi o destino de 60% da produção, mas é o trimestre de maior participação do mercado interno. Historicamente, esse porcentual gira em torno de 70% da produção. Hoje, considerando a diversificação geográfica da Minerva Foods (Brasil, Paraguai, Uruguai, Argentina e Colômbia), conseguimos exportar para todos os países do mundo.

PERFIL

Leonardo Alencar, zootecnista pela Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita, integra a equipe do Minerva Foods desde 2011, onde iniciou a carreira como analista Financeiro, e atualmente ocupa o cargo de gerente de Inteligência de Mercado do Minerva. Iniciou a carreira na área de mercado na Scot Consultoria, e teve experiências como consultor de mercado pecuário em corretoras de BM&F.

Possui expertise em análise de mercado de gado e grãos, com experiência em construção de cenários. Anos de experiência no setor de carnes e desenvolvimento de estudos econômicos em cadeia alimentar. É especialista em arbitragem de commodities, precificação de bovinos e carne bovina, estratégias de hedge, gestão de risco, negociação de commodities, análise de mercado, produção agropecuária e big data.

FONTE: Revista Beef, Edição 33