Quanto faturam e quais marcas têm BRF, JBS, Marfrig e Minerva? Quadro compara frigoríficos e explica preferências dos analistas
admin
05.28.2021

Juntas, BRF e Marfrig faturariam só 40% da JBS, mas tamanho não é o único fator que explica a preferência do mercado pela dona de Friboi e Seara

SÃO PAULO – A compra de quase um quarto do capital da BRF (BRFS3) pela Marfrig (MRFG3) gerou especulações no mercado sobre uma futura fusão das empresas. Ainda que elas se unissem, porém, o faturamento das duas juntas equivaleria a apenas 39% da receita da JBS (JBSS3), considerando os dados de 2020.

Mas não é apenas o tamanho da empresa que leva analistas a preferirem as ações da JBS entre os frigoríficos: a principal explicação está na diversificação geográfica e de produtos.

Os infográficos abaixo mostram as marcas que pertencem a cada um dos quatro maiores frigoríficos brasileiros listados na Bolsa: BRF, JBS, Marfrig e Minerva (BEEF3). Ao observar os portfólios de cada empresa e de onde vem o faturamento, fica mais fácil compreender as teses dos analistas sobre as preferências por uma ou outra companhia.

Veja a seguir as imagens que detalham a atuação das empresas, a partir dos dados levantados em parceria com a gestora RPS Capital. Em seguida, confira também um resumo das análises sobre o movimento da Marfrig, que passou a ser a maior acionista da BRF, e o que esperar das ações do setor.

Entre as marcas pertencentes à BRF, as mais conhecidas são Sadia e Perdigão, especializadas na venda de aves e suínos, embutidos e congelados. Em 2020, a maior parte da receita da empresa veio das vendas no Brasil. Mas analistas também destacam o crescimento no mercado do Oriente Médio, que chegou a representar 18% do faturamento da companhia no ano passado.

Com o maior faturamento entre as quatro empresas, a maior parte da receita da JBS em 2020 veio das vendas da sua unidade de bovinos nos Estados Unidos, a JBS USA Beef. Junto à Pilgrim’s Pride, também com sede nos EUA, e à unidade de suínos americana JBS USA Pork, a empresa obteve 76% do seu faturamento no país.

A maior oferta de gado no mercado americano – com a redução dos abates durante a pandemia – contribuiu para reduzir os custos da empresa, enquanto os estímulos do governo ajudaram a aquecer a economia dos EUA e manter a demanda elevada. A combinação desses fatores impulsionou os resultados da empresa lá fora.

Já o cenário no Brasil foi mais desafiador, com o aumento do preço dos grãos elevando custos e pressionando margens – fator que prejudicou ainda mais a BRF e a Minerva, mais expostas ao mercado nacional. Ainda assim, apenas a JBS Brasil faturou mais do que a BRF toda em 2020. Além disso, a receita da empresa no Brasil ficou apenas cerca de R$ 10 bilhões abaixo de todo o faturamento da Marfrig.

Além da forte exposição ao mercado americano, outro ponto visto com bons olhos pelos analistas é a diversificação de proteínas da JBS, com marcas mais focadas em bovinos, como Friboi e Maturatta, e outras em aves, como a Seara.

Do lado negativo, a intenção do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de se desfazer da participação na empresa, hoje em 23,16% do capital social, traz um risco de overhang (excesso de ações no mercado) aos papéis.

A Marfrig, maior produtora de hambúrguer do mundo e fabricante da carne que recheia o Big Mac, é dona de um portfólio focado em bovinos, com marcas como Bassi, de carnes premium, Montana, de carnes para churrasco, além de produtos plant-based (carnes vegetais), como a Revolution, e carnes carbono zero, como a Viva.

Dona da National Beef, quarta maior produtora de carne bovina dos Estados Unidos, 72% das receitas da Marfrig em 2020 vieram da América do Norte.

Ao somar os faturamentos da Marfrig e da BRF em 2020, que totalizam R$ 107 bilhões, o valor equivale a 38,9% da receita apurada pela JBS no ano passado, de R$ 275 bilhões.

Com forte presença na América do Sul, a Minerva tem unidades de abate no Brasil, Uruguai, na Argentina, no Paraguai e na Colômbia e exporta para mais de 100 países (conheça a trajetória do fundador da empresa, Fernando Queiroz).

A companhia tem o menor faturamento entre os quatro frigoríficos e as ações registram o pior desempenho do grupo no acumulado de 2021, com alta de 5,76%, contra avanço de 17,46% das ações da BRF, de 27,23% da Marfrig e de 27,21% da JBS.

A maior exposição aos mercados brasileiro e sul-americano, prejudicados pelo aumento do custo dos grãos e, recentemente, pelas restrições na Argentina, têm pressionado os papéis.

BRF e Marfrig juntas

Ainda que Marcos Molina, dono da Marfrig, tenha negado que a compra de 24,23% das ações da BRF tenha o objetivo de levar as empresas a juntar suas operações, analistas não descartam que a compra dos papéis pode ter sido um primeiro passo rumo à fusão. No geral, uma eventual união é vista com bons olhos, conforme mostraram os relatórios divulgados após a notícia.

Leonardo Alencar, analista de agro, alimentos e bebidas da XP, afirmou em live do programa Radar InfoMoney (assista abaixo) que a compra das ações da BRF não era esperada pelo mercado, e ainda há muito chão pela frente até uma possível fusão. Mas, ao imaginar uma possível junção das empresas, a complementaridade geográfica seria o ponto alto da tese, segundo ele.

“Em 2021, a Marfrig já chegou à casa de 80% da receita proveniente da América do Norte, região onde a BRF não tem participação, então seria um ponto muito forte na tese. Os outros 20% da receita da Marfrig vêm de Brasil, Argentina e Uruguai, então Argentina e Uruguai seriam outras geografias que a Marfrig passaria a ter na sua base”, afirma.

Alencar ressalta que a diversificação se daria também no portfólio de produtos. “Vale lembrar: Marfrig é 100% bovinos, muito focada em food service [restaurantes] e vem crescendo o segmento de industrializados, principalmente hambúrgueres. Já a BRF é carne de frango e suína, que representam 70% a 80% da receita da empresa, e é muito focada em varejo e processados, então tem muita complementaridade.”

O analista da XP reconhece que as duas juntas seriam menores que JBS, mas defende que a complementaridade garantiria menor volatilidade de resultados em um setor muito volátil, como o de commodities. “Claro que não muda a leitura de curto prazo de que a BRF tem seus desafios com os preços altos dos grãos por aqui, mas se a fusão acontecer, a conjuntura é muito favorável”, diz Alencar.

A despeito da visão positiva dos analistas, as ações da Marfrig caíram após a compra das ações da BRF, por alguns motivos: investidores não entenderam por que exatamente Molina levou um quarto da empresa, sem exigir direitos políticos e um assento no Conselho; a Marfrig vinha reduzindo sua alavancagem e, com a compra, essa tendência pode se reverter; e a BRF é mais exposta ao Brasil e à produção de aves, por isso vem enfrentando mais dificuldades que a Marfrig.

Já a BRF subiu mais de 16% na sexta-feira passada (21) e quase 30% no acumulado da semana encerrada no dia 21, após a compra volumosa das ações.

Angelica Marufuji, sócia e analista da Meraki, que também participou da live do Radar, destacou que o cenário hoje é bem diferente do contexto de 2019, quando as empresas fizeram uma tentativa frustrada de fusão.

“A Marfrig era uma empresa focada no mercado sul-americano e havia dúvidas do que ela queria ser no futuro. Com a compra da National Beef, ela capturou o benefício do ciclo bovino nos EUA e entrou numa espiral muito positiva de geração de caixa – essa é a principal diferença. A forte geração de caixa, obviamente, deixa a Marfrig muito mais confortável para fazer investimentos e, quem sabe, ter uma participação acionária mais expressiva na BRF do que em 2019”, diz Angelica.

A grande incógnita do mercado sobre uma eventual fusão, contudo, está na capacidade da Marfrig de gerir a cadeia de frangos. “A Marfrig já foi dona da Seara, que hoje é seu principal competidor, e conquistou market share de forma expressiva nos últimos anos, muito por conta da gestão, que mudou completamente nas mãos da JBS. A dúvida é o que a Marfrig poderia agregar à gestão da BRF, tendo em vista a diferença das proteínas e o histórico não tão favorável da Marfrig como dona da Seara”, diz Angelica.

JBS, a preferida

De acordo com dados da Refinitiv sobre as corretoras e bancos que têm cobertura para as ações, os papéis da BRF têm sete recomendações neutras e sete de compra; Marfrig tem sete de compra, cinco neutras e uma venda; e Minerva tem oito compras e quatro neutras. Já a JBS tem 13 recomendações de compra e duas neutras.

Angelica afirma que a Meraki tinha BRF na carteira, mas zerou a posição na sexta-feira (21), quando as ações dispararam com a compra da BRF. Agora, possuem apenas JBS, a empresa preferida da gestora no setor.

A preferência decorre de fatores como: a diversificação de proteínas; a exposição à carne bovina nos Estados Unidos; além da recuperação do mercado de suínos e frango na América do Norte. “As duas proteínas não tiveram um ano tão positivo em 2020, mas com a recuperação da economia americana, tanto por causa dos estímulos do governo quanto pela aceleração da vacinação, estão com desempenho mais positivo, acima do que a empresa imaginava para este semestre”, diz Angelica.

A sócia da Meraki afirma que essa conjuntura garantiu uma geração de caixa “expressiva” em 2020 que, provavelmente, deve se manter forte em 2021. “Isso se traduz em possibilidade de mais dividendos e M&As [fusões e aquisições]. A JBS é muito focal em falar de oportunidades em produtos processados, não só in natura, e fez uma aquisição recente em plant-based. É uma empresa muito ativa nesse aspecto e consegue usar o caixa de forma que isso gere mais valor.”

Alexandre Miguel, gestor da RPS Capital, também cita o crescimento das divisões de suínos e frangos nos Estados Unidos para explicar a preferência por JBS. “Outro ponto é que a JBS é menos alavancada. A Marfrig desalavancou bastante também, mas a JBS tem exposição a frango e porco na América do Norte, então é mais diversificada que a Marfrig, que ainda tem dependência grande de bovinos no país. E a JBS tem um histórico operacional melhor do que a Marfrig.”

Miguel diz que, recentemente, a gestora diminuiu a posição em JBS por causa da intenção de venda do BNDES, que pode trazer alguma volatilidade no curto prazo, mas segue otimista com o papel no médio e no longo prazo.

O gestor afirma ainda que os riscos ligados aos irmãos Wesley e Joesley Batista são reduzidos – ainda que uma decisão a Justiça federal de Brasília tenha autorizado, no último dia 13, os empresários a voltar à administração das empresas do grupo J&F. “A empresa manteve profissionais de mercado e vem melhorando a governança. Comitês de compliance aconteceram aqui e nos Estados Unidos e bons executivos foram chamados para a gestão lá fora”, diz.

Fonte: InfoMoney