Bem-estar animal: um investimento necessário
Bela Magrela
22.09.22

A população mundial está em constante crescimento e isso reflete no aumento da necessidade por produtos alimentícios, incluindo a demanda por proteínas de origem animal. Para suprir o mercado, produtores necessitam manter níveis constantes de produção, se atentando a minimizar perdas e otimizar os ganhos.

A produção de carne bovina apresenta um crescimento acentuado no Brasil, o USDA projeta um rebanho bovino brasileiro de cerca de 275 milhões de cabeças em 2022. Atualmente, a estimativa de produção do país para 2022 é de 9,85 milhões de toneladas de carne bovina, incremento de 3,7% em comparação com as 9,5 milhões de toneladas produzidas em 2021.

Para 2022, temos uma estimativa de que 27,66% da nossa produção será exportada para diferentes países do mundo, respeitando os mais rigorosos padrões de qualidade e exigências.

O consumidor moderno está cada vez mais atento e o mercado prioriza, cada dia mais, sistemas sustentáveis de produção e que respeitam o bem-estar animal.

De acordo com a Embrapa Gado de Corte, atualmente existem três principais motivos que incentivam a adoção de práticas de bem-estar animal nos sistemas de produção:

  • Questões éticas, morais e religiosas (ligadas ao respeito aos animais);
  • Questões técnico-comerciais (ligadas à produtividade e qualidade dos alimentos);
  • Questões comerciais (relacionada a imposição de barreiras não-tarifárias por mercados específicos).

 

A relevância do Bem-estar animal nas cadeias produtivas

Os  “5 domínios”, levantadas pela Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), são ferramentas mundialmente reconhecidas para diagnosticar o bem-estar animal. Esse estudo faz referência aos principais indicadores para mensurar a qualidade de vida de um animal.

 

 

Todos estes fatores quando atendidos garantem uma maior produtividade do rebanho e uma maior seguridade no manejo. De acordo com estudos realizados por Temple Grandin, psicóloga e zootecnista que revolucionou as práticas para o tratamento racional de animais vivos em fazendas e abatedouros, animais que sofrem estresse mínimo durante o manejo são mais responsivos positivamente ao contato humano.

As consequências do manejo inadequado, tanto no pré quanto no pós-abate, tem reflexos diretos na qualidade da carne.

Temple Grandin citou em um de seus estudos que o bastão de choque, por exemplo, pode diminuir a taxa de fertilidade das fêmeas, além de dificultar o manejo do gado.

Lesões e hematomas causados pelo uso indevido de ferramentas de manejo, transporte inadequado ou superlotação de lotes podem levar a um menor aproveitamento da carcaça e perdas consideráveis. Além disso, animais desidratados ou expostos à uma má nutrição, apresentarão menor ganho de peso e uma carne menos suculenta no momento do abate.

Existem também defeitos qualitativos relacionados ao processo de rigor mortis, reação responsável por transformar o músculo em carne para consumo. Defeitos como a carne PSE (Pale, Soft, Exudative – Pálida, Mole e Exsudativa) e a carne DFD (Dark, Firm, Dry – Escura, Firme e Seca) , geralmente estão relacionados às más condições de bem-estar animal. Animais expostos a situações estressantes no pré-abate terão a queda do pH prejudicada.

Esse acontecimento interfere diretamente na lucratividade da atividade, uma vez que carnes que possuem essas características terão seu valor reduzido e podem ser até mesmo descartadas.

Portanto, todos os investimentos em melhorias no sistema produtivo são válidos e devem ser incorporados aos custos de produção, proporcionando um incremento no valor agregado do produto e uma maior lucratividade para o produtor.